terça-feira, 9 de abril de 2013



4- A fuga de Joca

 Joca estava triste. Havia dentro do Joca uma confusão de sentimentos:  tristeza, dor,raiva,medo,etc. Enfim uma mistura de sentimentos  que não era possível descrever o que mais predominava mas o que mais transparecia era a tristeza. Joca embora tivesse apenas 5 anos de idade, não estava tendo uma infância feliz, não foi o filho mais novo mimado pelos pais e outros irmãos; sentia-se excluído e como se não fizesse parte daquela família. Em sua ingenuidade achava-se mais perto e parecido com as galinhas do que com os humanos e ai estava outro grande problema para Joca:  fugir e deixar todo o seu clico de amizades que estavam  reclusas no galinheiro?  Joca teve uma ideia antes de “fugir de casa” :  Libertar o Giba e  as galinhas. Algum tempo depois do fatídico almoço foi ate o galinheiro  escancarou o portão e deixou-o aberto esperando que os animais fugissem. Infelizmente, o galo-cinza não tinha o mesmo objetivo de Joca e não deixava nem Joca se aproximar das galinhas para libertá-las e tampouco as galinhas se aproximarem do portão. Ouvindo aquele estardalhaço todo, Vilmar o irmão de Joca veio correndo e acabou com o resgate das galinhas, alem disso deu um chute na bunda do Joca que o fez cair e Joca chorou e como chorou. Talvez mais de decepção; decepção por se punido por algo considerado nobre e justo: manter os animais vivos.
Joca percebeu assim que não seria nada fácil  libertar as galinhas. Quando levantou, percebeu que  suas pernas estavam em parte com uma cor diferente – estavam manchadas e também úmidas :  as amoras que  estavam no chão foram amassadas na queda do Joca e então imediatamente lembrou do que tinha feito com Michele e percebeu que não tinha adiantado nada ter pintado a galinha  e a depenado – ela morrera do mesmo jeito e Joca sentia-se culpado. Nesse momento  na sua pequena inocência  relacionou tudo na sua cabeça: morte; medo, callni,culpa,família e lembrou de  Michele o que aconteceria com ela?
Ele já tinha ouvido falar no culto em ressurreição e sabia que a palavra se aplicava a “situações de morte”. Embora a palavra fosse quase impronunciável para Joca e não entendesse ainda o real significado da mesma, sabia que era destinada exclusivamente aos mortos e então naquele momento Joca fez sua primeira oração espontânea  assim :
“Papai do Céu, sei que o Senhor pode tudo porque dizem que o senhor fez tudo, sei que não sou o que o pai e a mãe querem que eu seja e que meus irmãos não gostam muito de mim, mas também não sei o que eles querem que eu seja e o que tenho que fazer, acho que faço quase tudo errado mas acho que o Senhor sabe que eu tento fazer o que é certo, só não sei porque o castigo de tudo isso não veio em mim mas na Michele e nas amigas dela.Mas já que a Michele morreu e tá ai perto do Senhor agora, por favor será que o Senhor pode dar um pouco de ressurreição  pra ela, assim ela vai continuar gordinha e crescer as penas e pede desculpas para ela por eu ter deixado  a Michele daquela cor. Amém”.
Após essa breve oração,  Joca sentiu-se  aliviado, confiante e já cedo na vida descobrira que em certos momentos poderia conversar com algo ou alguém que não estava ali fisicamente. Sentiu que não eram apenas as galinhas que poderiam ouvi-lo, que não precisava de respostas imediatas, percebeu que estava em paz, que estava tranquilo, triste, mas tranquilo. Joca sentiu-se forte, triste, mas forte, Joca sentiu-se seguro, triste mas seguro e agora ainda mais determinado a fugir de casa 
Saiu escondido,  passou por debaixo de um buraco na cerca, pegou a estrada e andou e andou muito. O sol das 15:30 h estava muito quente, Joca não tinha levado água. Caminhou ate chegar a estrada mais larga que pudesse encontrar e pensou: “ deve ser essa, se porto alegre é grande deve ser uma estrada grande que chega lá”.
Continuou pela estrada por muitos metros, suando,cansado mas firme em sua decisão: encontrar algo ou alguém que nem ao certo sabia o que era e não lhe importava qual fosse e onde estivesse. Muitos anos depois já adulto ele continuava a fazer isso procurar algo ou alguém em algum lugar no meio do lugar nenhum. Porém naquele momento aos 5 anos  fazia planos de como seria diferente a vida que atualmente vivia. Imaginava outro menino como irmão com quem pudesse interagir mais ou menos com a idade dele e não igual ao Vilmar que só ficava olhando para ele e raramente respondia  ‘as  perguntas de  Joca. Imaginava ser tratado de forma melhor pelos membros da família e continuava imaginando quando seus pensamentos foram interrompidos por uma buzina de carro. O motorista - Um homem já com seus cinquenta e poucos anos todo suado e com uma voz grossa perguntou a Joca para onde ele iria e Joca repondeu: “quero ir pra poto alegui”  ao que o homem abrindo a porta falou: “entra ai que eu te levo” e Joca entrou. E Joca sentiu-se bem, Joca estava feliz.
Sem dar muita importância ao trajeto que o motorista estava traçando e mais preocupado com a poeira e com dor de cabeça por causa do sol forte, depois de algum tempo Joca ouviu a seguinte frase do condutor : “estamos quase chegando”.  Aquela voz lhe parecia familiar embora não conhecesse o motorista. Com possibilidade de estar quase chegando ao seu destino, começou a prestar mais atenção no caminho que estava e imediatamente reconheceu a grande seringueira na estrada que estava a menos de 100 m de sua casa. Sentiu um calafrio e percebeu que tinha sido enganado.
O carro já foi chegando e buzinando r frente ao terreno da casa do seu Bartolomeu. O próprio veio  até o portão com uma certa dificuldade para caminhar e reconheceu o carro do seu Sadi de Viamão (como ele era conhecido)  –um pequeno comerciante que havia se estabelecido há alguns anos na cidade vindo da cidade de Viamão.
Seu Sadi parou o carro, abriu a porta do carona e falou : “ olha quem eu encontrei na estrada querendo ir para porto alegre”. Joca sem falar nada desceu do carro, olhou para cima encarando seu Bartolomeu que demonstrou  descaso total com a situação e foi em direção a casa enquanto seu pai olhava para o grande relógio no pulso esquerdo e pensou “humm já é quase seis horas da tarde” no ato fez o seguinte convite : “ Vamos tomar um chimarrão seu Sadi ? “.
Seu Sadi apeou do carro,caminhou ao lado do seu Bartolomeu em direção ao pátio para tomar um chimarrão do final de tarde;
E Joca  ? Joca já estava a uns 2 metros a frente indo em direção a casa.
E joca ? Joca parecia  invisível e e indiferente aqueles dois homens;
E joca ?  Mais uma vez Joca estava triste.
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